Manejo Integrado de Botrytis cinerea em Morangos e Uvas: Estratégias e Tecnologias

Aborda a biologia da Botrytis cinerea, detalhando manejo cultural, controle biológico/químico e o uso de tecnologias emergentes para proteger morangos e uvas.

Manejo Integrado de Botrytis cinerea em Morangos e Uvas: Estratégias e Tecnologias

Dinâmica do Patógeno e Ciclo de Infecção em Culturas de Alto Valor

A Botrytis cinerea, comumente conhecida como mofo cinzento ou podridão cinzenta, representa uma das doenças fúngicas mais destrutivas para culturas de alto valor como morangos e uvas em regiões vitivinícolas e frutícolas da América Latina. Seu impacto se traduz em perdas significativas de rendimento e qualidade pós-colheita, afetando diretamente a rentabilidade dos produtores. Compreender a dinâmica deste patógeno e aplicar estratégias de manejo integradas é essencial para salvaguardar a produção e assegurar a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

O fungo Botrytis cinerea é um patógeno necrótrofo capaz de infectar uma ampla gama de tecidos vegetais, desde flores e frutos jovens até folhas e caules. Seu ciclo de vida é favorecido por condições de alta umidade relativa (superior a 90%) e temperaturas moderadas (entre 15°C e 25°C), fatores prevalentes em muitas zonas produtoras de morangos e uvas, especialmente durante a floração e o pintor. A infecção inicial ocorre frequentemente nas flores, permanecendo latente até que o fruto atinja a maturação, momento em que o fungo se ativa, provocando a característica podridão mole e acinzentada. Em uvas, a podridão pode se manifestar como “podridão nobre” sob condições muito específicas, mas na maioria dos casos é uma doença devastadora. Os esporos, conídios, dispersam-se principalmente pelo vento e pela chuva, colonizando rapidamente novas áreas da cultura.

A prevenção constitui a pedra angular na gestão da botrytis. Implementar práticas culturais adequadas reduz drasticamente a pressão da doença. Uma ventilação ótima no dossel das plantas é crucial; isso é alcançado através de podas estratégicas que eliminam a folhagem excessiva e asseguram uma boa circulação de ar, diminuindo a umidade ambiental ao redor dos frutos. Em culturas de morangos, o uso de coberturas plásticas ou de palha minimiza o contato dos frutos com o solo úmido, fonte de inóculo. Para as uvas, a gestão do vigor da videira e a desfolhação na zona dos cachos melhoram a exposição solar e a aeração [1]. A seleção de cultivares com maior resistência genética é uma estratégia de longo prazo cada vez mais relevante. Por exemplo, novas variedades de uva com cascas mais grossas ou com menor compactação de cachos estão sendo desenvolvidas, o que reduz a suscetibilidade à infecção. Da mesma forma, uma irrigação eficiente, preferencialmente por gotejamento, evita molhar a folhagem e os cachos, ao contrário da irrigação por aspersão que favorece a dispersão de esporos e a persistência de umidade [2].

Práticas Culturais para a Redução do Inóculo Fúngico

A integração de métodos de controle biológico e químico oferece uma abordagem robusta. Os agentes de controle biológico, como cepas específicas de Trichoderma harzianum ou Bacillus subtilis, competem com Botrytis cinerea por nutrientes e espaço, ou produzem compostos antifúngicos. Esses microrganismos são aplicados preventivamente durante as etapas fenológicas chave, como a floração [3]. Quanto ao controle químico, o uso de fungicidas deve ser racional e parte de uma estratégia de rotação. Alternar produtos com diferentes modos de ação previne o desenvolvimento de resistência no patógeno, um problema crescente em muitas regiões. Fungicidas à base de fludioxonil, ciprodinil ou fenhexamid são opções eficazes, mas sua aplicação deve ser guiada por limiares de risco e prognósticos climáticos. As novas moléculas fungicidas, com perfis toxicológicos mais favoráveis e maior especificidade, representam um avanço significativo na redução do impacto ambiental. Além disso, a aplicação de produtos à base de extratos vegetais ou óleos essenciais está ganhando terreno como alternativa aos fungicidas sintéticos, em linha com as tendências de produção orgânica e sustentável.

Um monitoramento constante é fundamental para a tomada de decisões oportunas. A inspeção regular das culturas permite detectar os primeiros sintomas da doença e avaliar as condições ambientais. Atualmente, a agricultura de precisão integra tecnologias que facilitam essa tarefa. Sensores meteorológicos e de umidade foliar em tempo real fornecem dados cruciais para prever surtos de botrytis. Modelos preditivos baseados em algoritmos avançados analisam esses dados e alertam os produtores sobre períodos de alto risco, otimizando a janela de aplicação de tratamentos [4]. Drones equipados com câmeras multiespectrais podem identificar zonas de estresse vegetal ou infecção incipiente antes que sejam visíveis ao olho humano, permitindo intervenções localizadas. Aplicativos móveis e plataformas de gestão agrícola oferecem ferramentas para registrar observações, acompanhar a evolução da doença e acessar recomendações personalizadas. Esses avanços tecnológicos não apenas melhoram a eficácia do controle, mas também contribuem para uma gestão mais eficiente dos recursos e uma redução do uso de insumos.

O manejo eficaz da Botrytis cinerea em morangos e uvas requer uma visão holística e adaptativa. A combinação de práticas culturais preventivas, o uso estratégico de agentes de controle biológico e fungicidas, juntamente com a implementação de tecnologias de monitoramento avançado, conforma uma estratégia integrada robusta. Adotar essas práticas não apenas protege a produção atual, mas também fomenta a resiliência dos sistemas agrícolas frente a desafios futuros. A inovação constante em genética vegetal e ferramentas de agricultura de precisão continuará oferecendo novas oportunidades para uma gestão mais sustentável e produtiva em nossos campos.

Agentes de Controle Biológico e Rotação de Fungicidas


Referências:

[1] Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA). Manejo integrado de botrytis en vid. Disponível em: https://inta.gob.ar/documentos/manejo-integrado-de-botrytis-en-vid

Monitoramento Ambiental e Previsão de Surtos com Agricultura de Precisão

[2] Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuaria (INTA). Manejo integrado de enfermedades en el cultivo de frutilla. Disponível em: https://inta.gob.ar/documentos/manejo-integrado-de-enfermedades-en-el-cultivo-de-frutilla

[3] Infoagro. Control biológico de Botrytis. Disponível em: https://www.infoagro.com/semillas_y_plantas/productos_biologicos/control_biologico_botrytis.asp

[4] Agrodigital. Sensores y Big Data: la clave para una agricultura más eficiente. Disponível em: https://www.agrodigital.com/2023/07/20/sensores-y-big-data-la-clave-para-una-agricultura-mas-eficiente/

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